07/07/2009

Cigarros do Cícero

O nome dele era Cícero. Lembro bem do Cícero. Estava sempre com um sorriso no rosto, dando bom dia para todos que passavam. Ajudava velhinhas a atravessar a rua caso não se incomodassem com o seu cheiro de mofo. Cícero era um mendigo gente boa. Dormia pelas ruas do centro e sempre cuidou bem de sua própria sujeira.

Cícero era vegetariano. Corria na praia para se manter bem disposto, em forma. Não perturbava muito por comida, pois pedia apenas o que realmente precisava, nem mais e nem menos. Em sua bolsa jeans rota sempre tinham cenouras, batatas, beterrabas, cebolas e outras coisas a serem comidas cruas e limpas na água do mar.

Cícero não tinha vícios. Não bebia, não fumava e nem nada. Cícero não tentava te empurrar alguma arte arte em troca de qualquer trocado. Cícero trabalhava para ganhar o pouco dinheiro que julgava precisar. Com poucos reais conseguia alguns legumes e um banho quando dava na telha.

O trabalho de Cícero o tornava um pedinte diferente. Andando pela rua, pedia cigarros a quem visse fumando. Cícero conhecia bem a lei jamais escrita dos fumantes: não se nega cigarro ou fogo. Cícero recolhia caixas vazias de cigarro também. De todas as marcas e tipos. No fim do dia, Cícero tinha muitos cigarros consigo.

Pacientemente, sentava-se num local fresco para organizar sua produção. Primeiro separava os cigarros por marca e depois via que pacotes havia conseguido. Cícero remontava os maços de cigarro. Usava sacolas plásticas nas mãos para manter a higiene do produto. Quando os maços arrumados acabavam, Cícero montava os "mistões": maços qualquer com vinte cigarros quaisquer.

No fim do dia, Cícero estava pronto para vender seus produto. Um maço "direito" custava um real. Um mistão, cinqüenta centavos. Ia para a porta de shows de rock, reagge, punk e outras jovens zoeiras. A garotada já conhecia o Cícero. Era onda ter um cigarro dele. Os mais corajosos iam de mistão e diziam não se arrepender. Cada hora um sabor diferente. Ora mentolado, ora tabaco queimado, ora um suave filtro branco. Assim ia a noite toda de cigarro por pouco dinheiro.

Tinha gente que comprava um cigarro de Cícero só para os que filavam cigarro. O maço "de verdade" ia num bolso e o mistão no outro. Quando alguém pedia um cigarro, lá ia um qualquer. Afinal, como diz o ditado: se me dão, não tem marca.

Nunca mais soube Cícero. Nem se ele realmente existiu.

19/06/2009

O programa de entrevistas dos meus sonhos

- Boa noite! Hoje em nosso programa temos dois convidados muito especiais. Por favor, aplausos para o Androide e o Super Brinquedo!!!

A platéia aplaude.

- Então, Androide, você sonha com ovelhas elétricas?

- 0.

A platéia aplaude.

- Agora você, Super Brinquedo, é verdade que você dura o verão inteiro?

- 1.

A platéia aplaude.

- Muito obrigado pela presença de todos e até nosso próximo programa!!!

Créditos finais.

29/05/2009

Beleza

Sempre que eu paro para ler os comentários dos leitores do Globo.com eu tenho vontade de largar a Sociologia. Então eu iria estudar robótica e criaria um exército autômato com a missão de destruir toda a humanidade. Inclusive eu, claro, no final.

Para deixar a misantropia de lado basta eu dar uma volta no quarteirão. Ontem, sem nem ter visto comentário algum, saí para passear e me apaixonar novamente pela humanidade.

Na esquina da Rio Branco com a 7 de Setembro, uma senhora recebia uma entidade dentro da loja da Di Santini. Os vendedores, educadamente, não deixavam as pessoas entrarem na loja enquanto uma moça prestava o devido atendimento à filha de santo.

Em volta da loja as pessoas se aglomeravam para assistir o socorre espiritual, complicando a passagem pela calçada. Uma mulher indignada tentava cruzar o aglomerado aos berros de "Que país é esse!? É o pais do Lula!!". Claro, afinal o presidente também é responsável por toda e qualquer atividade metafísica em território nacional.

Religião, política, economia e tudo mais explicitamente misturados num pequeno fenômeno urbano.

Que beleza, minha gente.